2012/03/23


O velho carvalho
Hoje cheguei a pensar em escrever algo. Cheguei a achar ter achado algo nunca perdido. 
Hoje parei diante de mim mesmo orgulhoso por ainda conseguir ficar em pé, e, embebido no drama que paira sobre o mundo atual pensei em um longo e profundo poema sobre o viver e o sobreviver. E ele deu voltas, e voltas, e voltas... estendeu-se de forma primorosa e chegou até a dar-me orgulho. Então, peguei o caderno (algo de papel onde se escreve usando tinta de um tubo) e o fechei. 
Somente existe sentido em escrever sobre a vida quando não há mais o que viver. Diante disso, leiam meu poema quando um dia vier a morrer.
Diogo Queiroz.

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Como adoro esse poema do Quintana resolvi coloca-lo abaixo para me lembrar de quem eu sou.

Carta
Meu caro poeta,
Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
( Mario Quintana )

2012/02/02

Melhores amigos

Toc toc!
Você veio?
Claro.
Não acreditei que viria.
Você não acredita em quase nada mesmo.
Bem, trouxe o combinado?
Até a última gota.
Vai ser suficiente?
Quem sabe... não conheço a sua pressa.
Mas você nunca me decepciona.
E você nunca me desaponta.
Então, vamos começar que a vida pode ser mais curta do que imagina.
Tim tim.

2011/10/23

Árvore


Alguns admiram você a distância, outros praguejam a sua existência por poluir o horizonte.

Existem os pombos. Pousam, cagam e voam. Vêm e vão como aves de estação e eventualmente descansam sobre você.

O casal de namorados, sim o casal de namorados! Eles aparecem todos os dias, estendem um pano na grama, fazem piquenique em sua sombra, marcam corações em seu tronco e trocam juras de amor.
O casal de namorados faz a árvore se sentir feliz, mas, como as nuvens do céu eles um dia simplesmente se vão. Desaparecem sem adeus e nunca mais voltam a te visitar.

As sementes desaparecem no horizonte com o vento e suas folhas nunca são vistas antes da morte da árvore.

Ser árvore é o exercício do observar e do autruísmo. Não vai te fazer mais sábio, não vai te fazer mais feliz, não vai te fazer nada melhor... Mas a sua existência muda o mundo e ajuda o fluir da paz nos corações alheios.

… já ia me esquecendo. De vez em quando alguns dizem obrigado.

2010/11/29

Miss Butterfly



Dias comuns são só mais alguns dias nas nossas vidas. Dias incomuns são "aqueles" dias que fazemos questão de guardar na memória e relatar eventualmente para alguém... ou simplesmente para nós mesmos.

Era um fim de dia comum. Gripe de fim de ano, conversa ocasional com namorada, trabalho, estudo... O retorno a pé da faculdade fazia parte da minha rotina dês da época da graduação e aquele caminho por onde passei, eu conheço de cor!

Bem, o caminho eu sei de cor mas as pessoas mudam com o tempo.

Enquanto andava me concentrando para andar bem vejo um comum grupo de meninas do colégio próximo à minha casa andar de volta para casa, em minha direção, e nesse instante, enquanto uma elas se aproximavam de mim, uma delas tenta levantar o cabelo e ensaiar um olhar sensual enquanto me diz: _Quero te amar!

Risadas do grupo, risadas minhas, uma piscada reflexiva, uma ótima sensação de auto-estima elevada e um dia engraçado para por no papel. Acho que vou escrever um conto inspirado nisso: "Miss Butterfly".

Boa noite Miss Butterfly!

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2010/10/24

Ink Face

Psicolepsia...

Tinta tinta e borrando vai. É sempre assim, no início parece tudo igual. Traços simples, cores de sempre, qualquer forma de sempre gera impacto. Não vale a pena perder tempo em traços novos se o de sempre, sempre, é suficiente para satisfazer a todos.
Tinta, tinta e os cortes na face se vão. É difícil enxergar por de trás de tão grossa linha de expressão. Alias, é difícil enxergar uma linha de expressão hoje. Todos são os mesmos e patéticos bonecos de pano de sempre.
Tinta tinta... porque continuo a querer pintar mais?



2010/08/30

Minha mão estava, ali, estendida na direção da desconhecida. Eu, perdido entre sons e predições, estava lá: tentando não fingir não ter medo da vida infinita e realmente não o te-lo. Viver! Deixar o fluir do sangue inchar veias por sua cabeça e o palpitar do seu coração balançar seus pensamentos! Em que momento será esquecemos como é viver... mas, não havia mais escapatória: Ali, minha mão esperava uma resposta.

Naquele salão escuro, música ao fundo cobria o ambiente de um ritmo abstrato. Era alegre para quem buscava alegria assim como dramático ou até romântico. O estado de espírito guiava seus ouvidos. A música, só mais um parceiro na dança.

E meus ouvidos, já muito sincronizados com tal ambiente, não escutavam mais romance, drama ou alegria. Eles já estavam gastos e o único som que escutavam era um tremendo vazio que, raramente, transformava-se em doce melodia. A melodia da companhia era rara e tinha um custo alto para mim.

(continua...)

2010/06/15

Em meio a notas de rodapé e tons sensuais rondando minha mente, costumo vislumbrar sonhos presentes não vividos. Espalho tintas pelo chão e brinco de encontrar formas desconexas como nossas vidas desligadas.
Nosso contato não existe mas nossos laços são reais. 
Ali, perdido em uma aquarela de intensos sentimentos conforto o meu coração ao tocar o seu coração rubro no papel.

.....

Abra a porta, deixa sair esse sentimento e encher seu quarto de prazer. Estreite os passos, permita-se viver esses momentos sublimes, raros, quentes e desejados na vida. 
Feche os olhos. Encontre mais que a realidade a sua volta. Vislumbre o mundo interior e a loucura magnífica do amor em sua vida. 
Amor que cede e toma, amor que acolhe e se doa, amor que cria e destrói bons e maus caminhos na vida. 

Permita-se!
  


2010/04/18

Porque aquelas cores de suas rendas, próprias de sua vulgaridade, insistem em permanecer em meus olhos? Eu quero apagar meus sentimentos como todo o resto de minha memória para que nada em suspenso continue vagando em meus pulmões... me atrapalhando a respirar... impedindo-me de acordar.

E a cada vez meu corpo se mostra mais frágil e menores são as  minhas histórias. Lembranças cada vez mais intensas e cada dia em menor número. Qual será meu destino? Uma degradação completa de dor e portos sobrando somente um único sol em minha mente? E por fim quando nada mais lembrar minha vida se resumira no eterno reencontro com o passado que viverei no futuro.

E muitas e muitas vezes assim eu morri. E muitas e muitas vezes assim descobri que ainda não estava morto. Um eterno despertar de um pesadelo recorrente. Quanto tempo mais eu vou suportar? E porque, porque, porque aquelas cores das vulgares rendas de suas roupas íntimas insistem em permanecer em meus olhos?

Vinte e nove sois hoje me iluminam. Espero ser capaz de viver com somente vinte e nove estrelas no céu.

2010/01/02

Estranho plágio...

Eu digo, não tenho mais palavas para contar. Como o amor pode ser áspero como as palavras do seu falar? Mesmo assim eu conto: prefiro amar que viver vazio. / Não fuja de mim. Não me deixe a imaginar seu olhar. Agora eu sei que o caminho, tortuoso para você e para mim, devagarzinho a mesma estrada pode tomar. / Deixe-me ver as mesmas estrelas que você vê. E tantos pensamentos que temos para compartilhar... a única verdade é que mesmo incertos podemos nos encontrar. / Não sei mais quem você é e o que está a viver. Mas eu quero a minha mão estender em uma simples idéia. Se a paixão e o amor cessar um dia em fim, em meus braços com carinho vou cuidar e abraçar-te até morrer.

2009/11/09

Erosão da Liberdade

    Assusta-me e ao mesmo tempo impressiona-me ver a gradativa perda de pequenos alicerces que sustentam, talvez, um dos poucos motivos que valha a pena lutar: o direito de ser livre.
    Dia após dia vejo pessoas abrindo mão de sua escolhas físicas e psicológicas para aceitarem assim seguirem caminhos prontos, catalogados e "aprovados" da sociedade.
    Desta forma velada pouco a pouco nos tornamos seres sem escolhas que somente fazem o que se deve e é permitido fazer.
    A liberdade não está sendo removida pela proibição do direito de fazer, mas sim pela remoção das escolhas em si.
    E as pessoas, em uma reação assustadora, estão aceitando bem tais emoções e simplesmente limitando cada dia mais suas mentes e universos.    
    A panela está esquentando, e a pressão aumentando... Quanto tempo mais o mundo vai tolerar ser preso e infeliz? Provavelmente alguém vai ter que morrer para tal carga detonar.... ou alguéns.
    
   

2009/10/13

Era como uma flor frágil, delicada e sensível. Minhas mãos tocavam sua pele e seu corpo respondia com espasmos, calafrios que gradativamente a possuíam, enquanto calores misturavam-se confusamente em  seu colo.
As distâncias entre meu ser e tão refinada anima eram cada vez menores mas, a cada momento, percebia seu medo a levar psicodelicamente  para longe de mim... a proximidade e a distância assim como o desejo e o medo em um só corpo.

2009/09/30

Ensaio...

Sei não, a vida não tem graça sem uma paixão. (Sim, concordo, é quase tão brega quanto rimar flor com amor. )

    Dias de um escritor, até certo ponto, podem ser muito tediosos. Você para algumas horas para ler algo interessante, dedica mais outras horas para escrever algo interessante e no entremeio toma uma cerveja com alguma amigo ou com aquela sua vizinha assanhada.

    Essa era a rotina corriqueira que Haroldo costuma, eventualmente, ter. Mas alguns solavancos que realmente o faziam escrever algo que realmente prestasse e não essas crônicas de fim de semana.

    Ontem, lá pelas sete horas, o sol tinha acabado de se despedir com seus últimos raios e ele pensava com meus botões o que iria acontecer em mais uma noite da sua vida enquanto olhava sua caixa de correio. Muita gente não pensa tal tipo devaneio, simplesmente vive mais uma noite na vida e pronto. Haroldo todavia nunca teve muita aptidão para "mais uma noite", o que fazia dele um forte candidato a nunca ter "mais um dia" como o que frequentemente acontece.

    E aquela noite começou com um convite, muito peculiar, enviado em um envelope vermelho com mosaicos pretos, encontrado em sua caixa de correio logo abaixo de sua conta telefônica.

    _Propaganda de natal? - Conversava ele consigo mesmo enquanto abria o convite sem remetente. Talvez julho fosse um pouco cedo demais para isso... Contudo, antes sequer de sentir a bobagem que disse, seus pensamentos foram tomados por outras idéias...

...Continua


2009/09/24

Quanto mais corria mais próximo ele se sentia. A fuga era inútil e desesperada. Seus pensamentos consistiam somente em faces sobre pontos de vista diferentes. Talvez estivesse estimando algo que nunca haveria de existir, talvez estivesse vivendo algo que nunca chegou a existir. Eram poucas opções ao seu dispor e, assim, escolheu o mais sensato: para e olhar para dentro de si mesmo.